Geração Beta: Faz sentido falar de gerações em um Brasil tão desigual?

kadu sousa

Fundador e Diretor Executivo da audienSee.ai | Criador do MGP — Modelo Geral da Percepção

A partir de 2025, inicia-se a chamada Geração Beta, termo proposto pelo demógrafo e futurista Mark McCrindle para descrever as crianças nascidas entre 2025 e 2039. Inspirado no conceito de “versão beta” da tecnologia, o rótulo sugere uma geração em constante evolução e adaptação. No entanto, em um país tão desigual como o Brasil, será que esse rótulo é aplicável de forma homogênea?

Compreender tendências globais é importante, pois elas ajudam a antecipar movimentos sociais, econômicos e culturais que impactam o futuro. Contudo, ao analisarmos o contexto brasileiro, percebemos que as experiências de vida são moldadas por desigualdades tão profundas que uma única narrativa geracional dificilmente captura toda a realidade.

Enquanto em algumas regiões as crianças da Geração Beta crescerão com acesso a tecnologias avançadas e educação de qualidade, outras ainda enfrentarão desafios básicos como falta de saneamento, educação precária e conectividade limitada. Em um país marcado por um verdadeiro apartheid digital, a Geração Beta brasileira é fragmentada e diversa.

Mais do que rótulos, o que define uma geração é a forma como ela percebe e compartilha o mundo. A percepção – a maneira como cada indivíduo experimenta e interpreta a realidade – é moldada por experiências sensoriais, emocionais e sociais. No entanto, em uma sociedade como a nossa, essa percepção nem sempre encontra espaço para ser compartilhada.

É aqui que entra a ideia da partilha do sensível, conceito desenvolvido pelo filósofo Jacques Rancière. Segundo Rancière, a partilha do sensível refere-se à maneira como uma sociedade organiza o que é percebido, pensado e sentido, determinando quem tem o direito de participar da construção do sensível coletivo e quem é excluído desse processo. Em outras palavras, a partilha do sensível define quais percepções são reconhecidas e quais são silenciadas.

No Brasil, essa partilha é frequentemente interrompida pela desigualdade. Jovens que crescem em condições privilegiadas têm acesso a narrativas, tecnologias e oportunidades que permanecem fora do alcance de milhões de outros. Isso reforça divisões que impedem o encontro de diferentes percepções e, consequentemente, o desenvolvimento de uma verdadeira Geração Beta – adaptável, conectada e inclusiva.

Então, faz sentido falar de gerações em um país como o Brasil? Sim, mas com uma importante ressalva: precisamos ir além dos rótulos. O termo Geração Beta pode fazer sentido como referência global, mas no contexto brasileiro, ele só será significativo se enfrentarmos os desafios que limitam a partilha do sensível. Mais do que nomear, é preciso construir um futuro onde todas as percepções tenham espaço para coexistir e contribuir.

O verdadeiro desafio da Geração Beta brasileira não será apenas tecnológico ou ambiental, mas social. Não basta reconhecer tendências; precisamos criar condições para que o acesso à educação, cultura e tecnologia seja amplo e democrático. Só assim, no Brasil, a Geração Beta poderá ser mais do que um rótulo – poderá ser a geração que rompe barreiras, conecta percepções e constrói um futuro mais inclusivo.

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